Crônica: QUE PALAVRÃO É ESSE?

Existem palavras cujo uso só faz sentido em determinados lugares e situações e, mesmo assim, devem ser usadas com moderação.

É o caso de “procrastinar”. Nada contra seu uso, quero deixar claro, mas, além de pouco utilizado, me faz lembrar de algumas histórias contadas por amigos:

Rosecler e Astolfo formavam um jovem e apaixonado casal. Namoravam já há oito anos e sempre sob a supervisão da mãe.

– Estou sentindo você tão ausente, Rosecler, o que está acontecendo? – disse Astolfo já meio cansado de ver a namorada pensativa.

– Nada não, amor. Deixa pra lá.

– Ei, pode contar comigo – falou Astolfo visivelmente preocupado e continuou daquele jeito apaixonado como se falasse com uma criança, mas que já incomodava Rosecler. – Quem é que ama você? Quem ama você? Quem? Euuuuuu! – Astolfo abriu um sorriso de orelha a orelha e continuou: – Diz pra mim o que te afligi.

– Estou procrastinando – respondeu Rosecler de cabeça baixa, depois olhou para Astolfo com olhos tristes e continuou: – E faz tempo. Desculpe, mas é a verdade.

Astolfo ficou pensativo por um longo tempo.

– Nunca imaginei que faria isso. Nunca mesmo! – disse o rapaz com amargura na voz, e continuou: – Quem é ele?

– Ele quem? – respondeu Rosecler.

– Com quem está procrastinando? Vamos, diga!

Diante da reação de Rosecler, ou seja, nenhuma reação exceto espanto, Astolfo corre para a porta e antes de sair diz:

– Acabou! Continue a procrastinar com o outro! – E sai apressado batendo a porta.

Sua mãe entra apressada na sala ainda com o pano de prato na mão. Encontra Rosecler ainda sentada olhando para a porta fechada, boca aberta e olhos esbugalhados.

– Quando seu pai chegar vou ter uma conversa séria com ele. Você vai para um colégio interno! – Virou as costas e voltou apressada para a cozinha.

Rosecler não respondeu, continuou sentada. Continuava de boca aberta, continuava com os olhos esbugalhados, mas agora acompanhava os passos da mãe que ainda resmungava coisas ininteligíveis.

Durante os anos de convento – foi a opção do pai para parar, de vez, com a vida lasciva da filha -, Rosecler escreveu e publicou três livros, mas nunca casou.

Outro caso, este contado por um amigo – prefiro não revelar seu nome -, cujo casamento andava meio complicado, dizia mais ou menos o seguinte:

Atendeu o telefone. Sua mulher levanta a sobrancelha. Não tira os olhos da TV, mas não vê mais nada, todos os sentidos direcionados exclusivamente à audição, potencializando-a. Já desconfiava do marido fazia tempo.

– Hum, sei… É mesmo? Que coisa chata… Certo… Não esquenta a cabeça, isso passa e tudo voltará ao normal.

Desliga o telefone. Fica pensativo por alguns instantes.

– Quem era? – pergunta a mulher.

– O Acrísio.

Silêncio.

– E…? – continua a mulher.

– A Soraia! – faz uma pausa. – Está procrastinando. Ele não sabe mais o que fazer para acabar com isso.

– Eu sabia! – diz a mulher levantando-se bruscamente. – Eu sabia! Aquela sirigaita. E você, fique longe dela! – Enquanto falava apontava e balançava o dedo indicador para o marido.

Casos como esses são mais comuns do que imaginamos.

Tempos atrás um amigo levou exatos três minutos para pronunciar “procrastinar”. O fato de ele ser gago não tira minha responsabilidade em não tê-lo ajudado naquele triste momento emendando a continuação da palavra. Eu confesso, logo que cheguei em casa corri ao dicionário para saber que palavrão era aquele, preocupado em conhecer a doença que afligia meu amigo.

Desafio os poucos que, pacientemente, leram este texto até seu quase fenecimento a repetir três vezes seguidas, em voz alta e rapidamente:

– Procrastinar! Procrastinar! Procrastinar!

Eu não consigo. Já tentei.

Vou além, alguém já o chamou de pacóvio? Você já correu para um homizio? Já ficou rubicundo? Já defenestrou alguém?

Sobre este último, não resisto, tenho que comentar. Se você atira alguém pela janela o que acha mais coerente dizer ao delegado:

– Confesso, defenestrei Clotilde.

ou

– Confesso, atirei Clotilde pela janela.

Quem optar pela primeira alternativa, creio que sua pena será aumentada em alguns anos.

Desejo a todos uma excelente semana.

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